
SUSANA BACA
“Afrodiaspora”
20 Maio | Guarda | Teatro Municipal
21 Maio | Alcobaça | Cine Teatro
Susana Baca: voz
Ernesto Hermoza: guitarras, charango
Hugo Bravo: percussões
Oscar Huaranga: baixo
Técnico Som: Fico
Tour Manager: Iran Gomes
Eu sou de Chorrillos, na zona sul de Lima. Mudou muito ao longo dos anos, mas na minha infância, havia muitos estábulos, fazendas e pescadores arranjando as suas redes e uma praia onde as pessoas ricas vinham passar as suas férias. Em Chorrillos, aos domingos, as famílias negras reuniam-se, no seu único dia de folga, para cozinhar, tocar e ouvir música. Eram trabalhadores, lavadeiras, empregadas domésticas, cozinheiras, etc. e nesse dia reuniam-se com suas famílias para comer e tocar as músicas que ouviam na rádio: música cubana, cumbias, canções mexicanas, tangos. Eu podia estar a brincar com outras crianças, mas assim que a música começava, eu juntava-me aos adultos. Ouvia-se muita música cubana, boleros, tangos. Mas, a música peruana não passava muito na rádio, e as pessoas faziam um esforço para se lembrar das danzas, walzes e outros estilos. Foi ai que ouvi Célia Cruz, “Palo Mayimbe”, e senti algo muito nosso, apesar de ser uma canção cubana. É como sinto este trabalho, é a nossa celebração da presença africana nas américas e o modo como se tornou parte da América Latina.
As nossas músicas (e todos nós) são uma mistura das culturas espanhola, indígena e africana. Os espanhóis quando chegaram ao Peru, encontraram uma cultura muito forte – mesmo aqui, em Lima, que foi o centro da influência espanhola – a cultura Inca. Com os conquistadores vieram os primeiros africanos, e mais tarde os escravos que chegavam a Cartagena e que depois eram trazidos para a costa do Peru, com outros escravos para as plantações de açúcar e algodão. Eram propriedade dos espanhóis, declarados como propriedade da Igreja dominicana e jesuíta. Este disco é a celebração da presença africana nas Américas, a experiencia de um povo que viveu esta viagem, onde só os mais fortes sobreviveram.
Eu sinto a música de Cuba, Colômbia, Equador, Argentina e de Porto Rico como se fosse a minha. É a minha essência. Como os tambores de Guatire da Venezuela. Sinto que eles estão a falar com a minha alma, mesmo não sendo venezuelana. Eu sinto -me uma parte deles.
Viajei para muitos lugares onde os Afro descendentes vivem na América Latina, muitos deles em lugares pobres e esquecidos, negligenciados pelos governos, onde existe, de facto, exclusão social. Mas, sinto que eles têm uma força espiritual para expressar a sua herança africana. Eu tento cantar canções destes lugares, mesmo não estando lá. Quero celebrar o sangue partilhado, e a forma como a presença africana moldou a América Latina.
Susana Baca
